Das coisas que não nos contaram na escola, mas aprendemos viajando

Dá pra imaginar o que aconteceria se fossem despejados sobre os Estados Unidos 2 milhões de toneladas de bombas, todos os dias durante 9 anos? Será que chamariam isso de ataque(s) terrorista(s)? Pois foi essa a herança americana sobre o Laos, um dos países mais pobres do sudeste asiático e o mais bombardeado no mundo (cálculo per capta), na infame Guerra Secreta. Isso é mais que a soma da quantidade de bombas jogadas pelos Nazistas e pelos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial. Mas a parte triste não termina aí: estima-se que 30% dessas bombas lançadas falharam na hora de detonar e continuam ativas até hoje, enterradas nos campos de arroz, em parques arqueológicos, vilarejos e escolas. As bombas são chamadas pelos locais de bombies (o termo técnico é UXO, sigla para Unexploded Ordnance, ou bomba não-detonada), que já se acostumaram a viver com o medo e a eventual fatalidade. Um dado triste: 47% das fatalidades acontecem com crianças. Para eles é uma realidade triste mas normal. Para os visitantes, caminhar fora das trilhas ‘limpas’, é uma estupidez sem tamanho.

Entre 1964 e 1973 os Estados Unidos gastaram o equivalente a 2.2 milhões de dólares por dia em explosivos. Repetindo: dois-milhões-e-duzentos-mil-dólares-por-dia entupindo um país declarado NEUTRO na guerra. Quem saiu perdendo com isso? 22 mil crianças e camponeses que morreram ou ficaram cegos ou amputados por pisar, capinar, brincar, cozinhar ou escavar onde havia um UXO sob a terra, depois que o conflito acabou. Isso mesmo, depois do cessar fogo e do fim da guerra.

Exótica decoração de uma agência de viagens de Phonsavan

Exótica decoração de uma agência de viagens de Phonsavan

Pra piorar, como são vilarejos muito pobres, ainda surgiu um mercado negro paralelo que revende os metais das bombas encontradas. Para muitas comunidades agrícolas, impedidas de trabalhar na lavoura, encontrar e revender esses metais virou um meio de subsistência. Uma bombie, do tamanho de uma bola de tênis e que se detonar pode destruir uma casa inteira, custa 20 centavos de dólar nesse mercado negro. Os restos das bombas já detonadas são usados para fazer pulseiras, colheres e panelas, além de serem utilizados na decoração de casas, lojas e hotéis. Vimos vários exemplos em Phonsavan e foi difícil acreditar na bizarrice que isso significa. Algumas construções chegaram a incorporar pedaços dessas bombas na própria estrutura da casa.

Mas como esse é um blog feliz, apesar de tamanha atrocidade, vale falar que vários grupos internacionais se dedicam ao trabalho de erradicar os campos do Laos desses UXOs. Um deles se chama COPE (Cooperative Orthotic and Prosthetic Enterprise), que mantém em Vientiane um centro de informações e uma fábrica de próteses para as vítimas deste tipo de acidente. Também existem o UXOLao o MAG (Mines Advisory Group), principal órgão internacional de ajuda nesse campo, limpando extensas áreas e trazendo novas oportunidades para os aldeões. É um trabalho de formiguinha, que vai levar muitas e muitas gerações para ser concluído, se é que algum dia vai ser possível erradicar tantas e tantas bombas enterradas pelo país. Os caras que fazem esse trabalho são heróis, dá vontade de abraçar todos. O desafio principal deles é encontrar as bombas antes que alguma criança ou revendedor de metais tente remover elas de onde estão.

Agora imagine o que daria pra fazer se, por 9 anos seguidos, fossem despejados 2.2 milhões de dólares por dia em recursos para saúde e educação num canto tão pobre e remoto do mundo? Abaixo, desenhos de uma criança que convive com isso (cenas do trsiet documentário Bomb Harvest) no dia a dia.

E pra quem se interessar pelo assunto, vai no youtube e digita “Bombies Laos”. Tem dezenas de filmes curtinhos sobre os UXOs e suas vítimas.

Junico

Um comentário sobre “Das coisas que não nos contaram na escola, mas aprendemos viajando

  1. Fico feliz de ser amiga de jovens tão aventureiros, talentosos, estudiosos e desapegados de valores que são finitos. Gostaria de ter a idade de vocês e viajar sem destino, mas isto é um privilégio da juventude. Aproveitem!!!❤️

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s