Nova Delhi – um post póstumo

Já saímos da Índia, mesmo sabendo que a Índia ainda não saiu da gente. Ainda calculamos algumas coisas em rúpias e diariamente acabamos fazendo alguma comparação lá versus aqui. O aqui, no caso, é Myanmar, onde completamos uma semana ontem, no mesmo dia que completamos 11 meses de viagem. Que doideira!

Sobre o post póstumo, Nova Delhi foi nossa última parada antes de pegar o vôo pra Yangon, com escala em Kuala Lumpur, na Malásia. A vontade de turistar pela cidade foi quase zero, já que tava um calor infernal. Aproveitamos o tempo pra resolver umas burocracias, enviar umas coisas pro Brasil (padre Beto e madre Dag, mil perdões por mandar mais uma caixa pra ocupar espaço na casa de vocês) e comprar coisas que pensávamos que não encontraríamos em Yangon. Baita engano, já que descobrimos que Myanmar é muito mais desenvolvido que a Índia e que até supermercado tem aqui. Mas isso é assunto pra outro post. Esse aqui é só pra compartilhar algumas impressões da capital indiana, cidade imensa e agitada, gente trabalhando e correndo de um lado pro outro sem parar. Se a Índia fosse o Brasil, Delhi seria São Paulo.

Mesmo não morrendo de amores por metrópoles, vale dizer que Delhi é muito mais limpa e organizada que Mumbai. Até semáforos tem! Um pouco menos de buzinas e bem menos vacas e macacos nas ruas. Várias lojas com preço baixo fixo, nem foi necessário pechinchar tudo. Deu vontade de comprar muita coisa, principalmente roupas e temperos, mas a gente se controla: a grana precisa durar até o final do ano e as mochilas já estão bem pesadas.

Abaixo, umas fotinhos da turma trabalhando.

Por Junico

Onde o oriente encontra o ocidente

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O melhor de dois mundos: privada indian e western styles

Na Índia os marajás não sentam no trono, eles acocam mesmo. Banheiros nos trens geralmente têm as duas categorias ‘indian style’ e ‘western style’. Claro que nenhuma delas têm papel higiênico, no máximo têm um balde com água e um potinho pra se limpar. Daí vem o costume de sempre comer e cumprimentar com a mão direita: a mão ‘limpa’. A esquerda é pro trabalho sujo. Só imagino o preconceito que os canhotos devem sofrer por aqui.

Pra completar a cena, o homem indiano mija em qualquer lugar. O que é feio pra gente, não é nada estranho pra eles. Tanto é que o governo (ou alguma alma caridosa) construíu alguns mictórios ao ar livre mesmo, algumas vezes no meio de ruas bem movimentadas, pra deixar a coisa mais organizada. Sem portas, sem nada, mas já que não dá pra segurar, ao menos que acerte o alvo no lugar correto.

Street shots II – Working hard

Cada um se vira como pode aqui e parece que todo emprego é informal, ou que todas as lojas vendem a mesma coisa. Quase tudo é pechinchável, mas vale o bom senso. Volta e meia a gente se pega discutindo pra baixar 30 ou 40 rúpias de algo que já é muito barato. Entendemos que para estrangeiros sempre é um pouco mais caro, mas ok,  fingimos que não sabemos disso. Ajudar quem trabalha tanto faz bem pro karma.

Street shots III – Keep the faith

Milhares de deuses para 1.2 bilhão de pessoas. Pra maioria dos hindus (e dos budistas, dos jainistas, dos sikhs, dos muçulmanos etc), viajar por aqui significa visitar lugares sagrados. Templos, igrejas, mesquitas, árvores, lagos, montanhas, rios, gurus etc. É através da puja que se pede (ou se agradece) alguma coisa para uma divindade. É o momento de oferecer incensos, doces, óleos, leite, flores, velas e uma infinidade de coisas que – segundo acreditam – o pessoal lá de cima curte. A puja é uma oração-ritual-celebração que pode ser individual ou coletiva, em casa ou no local de trabalho, diária ou em eventos especiais, nos templos ou na beira de um rio. Tudo é permitido pra deixar os deuses felizes e ter as graças alcançadas.

Street shots V – The big sleep

Temos uma piada interna que é referente ao ‘indian time’. Sempre que nos dizem ‘5 minutos’ pra alguma coisa, a gente sabe que vai levar no mínimo 20. Ou muito mais. O tempo aqui anda noutro ritmo, parece que as pessoas estão sempre esperando alguma coisa: o ônibus, o trem ou a morte. Graças a isso – a gente imagina – o povo desenvolveram um talento para acocar ou dormir em qualquer lugar, não importa se tem buzina, vaca ou uma multidão passando. Dá até uma invejinha, às vezes.

Back on track

As viagens aqui na Índia costumam ser longas, beeeeem longas mesmo. Não é raro levar umas 12 horas pra percorrer uns míseros 400km, tanto faz se for de trem ou de ônibus. Tudo bem, isso não chega a ser um problema: é nos deslocamentos que a gente vê o que é a Índia de verdade. Famílias inteiras, entra-e-sai de vendedores de chai e comida, mendigos, bêbados, perdidos, crianças, de tudo um pouco. Apinhamentos e mais apinhamentos de gente. Pra passar o tempo das longas jornadas, me divirto tirando fotos pela janela. E azucrinando a Lari também.

Para o norte. E avante!

Depois de dois meses pelo sul da Índia, seguimos pra segunda etapa da trip: viajar pelo Rajastão, começando pela cidade de Udaipur.

Aqui é praticamente outro país, tudo muito diferente do sul. A comida muda, o idioma muda, a arquitetura muda. Terra de palácios e de elefantes, de artistas que pintam com pincéis finíssimos (e dão aulas!), de lojistas chatos pacarai e de mulheres com saris supercoloridos, Udaipur é uma cidade nem grande nem pequena, que ficou famosa por causa do 007 Contra Octopussy de 1983. Ruas estreitas cheias de vaquinhas e cachorrinhos. Bem menos motos e buzinas que as outras cidades que passamos até agora. No alto do morro, tem o City Palace, que foi residência dos marajás nos tempos áureos da cidade. Durante a colonização britânica, abrigou os  ingleses (que malandros!) também.
A gente ficou 8 dias em Udaipur, por vários motivos. Um deles é que inventamos de comprar um tuk-tuk pra seguir viagem. Infelizmente, não achamos nenhum dentro do preço que a gente queria pagar e que não estivesse caindo aos pedaços. O legal disso tudo é que conhecemos quase todos os motoristas da cidade e ainda dirigimos alguns como test-drive. Confesso que dirigir um veículo de 3 rodas não é tão simples como eu imaginava, parece que vai capotar em todas as curvas. Muita gente tentou nos ajudar nessa empreitada que – mesmo não dando certo – acabou sendo divertida.
Também fizemos alguns amigos lá, incluindo o Vivek (dono da pousada), o Puskar (que ajudou a intermediar a compra do tuk-tuk), o Vimal (motorista de tuk-tuk que nos convenceu a não comprar qualquer lata velha dele), o Robert-Jesus-Save-Me (dicas sobre os diferentes tipos de tuk-tuk) e muitos outros personagens super legais. Reencontramos a Anna e o Willem, casal hispano-holandês queridão que conhecemos em Varkala e tá fazendo uma trip tipo a nossa, sem passagem de volta e indo pra onde der na telha. Também conhecemos o Sanjay, um rapaz boa pinta que nos levou pra passear de moto por zonas onde os turistas não costumam pisar e nos levou pra comer coisas que só indianos conseguem comer sem morrer. E pra nossa surpresa, foi tri bom, barato e não passamos mal. Nem morremos. Mesmo depois de tanta comida de rua, incluindo gelo picado com xarope de ai-meu-deus. A fórmula “gelo = água = morte” não funcionou 😉
Outro motivo é que durante nossa estada, rolou um baita festival chamado Mewar Festival. Foram 3 dias de música, desfiles, shows e apresentações bizarras, incluindo um cara com 2 metros de bigode que dançava enlouquecidamente com uma mulher que talvez seja homem (não dava pra ter certeza), além de muitas procissões de mulheres e crianças carregando bonecos na cabeça prum lado e pro outro até chegar no lago Pichola.
No último dia do festival, rolou um concurso para escolher o ‘Best Rajasthani Foreign Couple’, onde nos convidaram e acabamos participando. Disseram que a gente vestiria as roupas deles e ficaríamos lá parados, sem fazer nada. Claro que não foi o que aconteceu: subimos no palco, um cara fez uma meia dúzia de perguntas e nos pediu pra dançar. Sem ensaio, sem nada. Infelizmente, os jurados não nos escolheram como vencedores, porém se dependesse do voto popular, provavelmente a gente teria levado algum prêmio (que era um jantar magnata, mas sem bebida alcoólica). Muita gente veio tirar selfie depois da apresentação, é tipo uma febre isso aqui. Tudo bem, tudo bem.
Abaixo, o vídeo que o amigo Sanjay fez da nossa apresentação:
E pra encerrar nossos 15 minutos de fama: Saímos em 2 jornais no dia seguinte. Que viagem!

Chennai: ver pra crer (como é tinhoso esse lugar)

Que lugarzinho desgraçado. Sério.

Antiga Madras, Chenai é a típica cidade grande, suja, barulhenta e quente. Escassez de restaurantes  limpos (fomos salvos por um tal de Saravana Bhavan, com thalis bem honestos) e de cafés com wi-fi, de tuk-tuks usando o precímetro e de atrações bacanas pra visitar. Acabamos indo pra lá só por causa do aeroporto e das companhias low cost que saem do sul da India rumo ao norte.

Dizem que as ossadas do apóstolo Tomé, aquele descrente que precisou ver as chagas de Cristo para acreditar na sua ressurreição, estão na catedral da cidade. A gente meio que caiu nessa, tudo que a gente pesquisou falava mal do lugar, mas mesmo assim fomos lá ver pra crer. Fuéin. De fato, é uma desgraça.

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Sobre o voo: compramos as passagens via SkyScanner, que em nenhum momento avisou que o peso máximo permitido para despachar é de 15kg. Resultado: tivemos que tirar 6kg de cada mochila e passar pra bagagem de mão, já bem pesadinha. Abaixo, Lari ahazando vestindo quase todas as roupas da mochila ao mesmo tempo.

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Na hora de reduzir o peso da mochila, mais é menos.

Na hora de reduzir o peso da mochila, mais é menos.